Conta-se
que um jovem ameaçava suicidar no parapeito de
uma ponte.
Um policial recebeu a incumbência de
dissuadi-lo do gesto tresloucado. Vagarosamente
subiu até onde ele estava e arrastou-se em sua
direção. Ainda fora do alcance de seus braços,
iniciou o diálogo: "Jovem, a vida é bela,
vale a pena viver". O rapaz continuava
resoluto a matar-se. O policial então tentou
outra tática: "Eu lhe darei 10 razões
pelas quais você não deve suicidar e depois
permitirei que você me diga por que deseja
morrer". Minutos depois os dois se jogaram
da ponte.
Essa história tragicômica reflete a nossa
angústia existencial: queremos ser felizes.
Pascal afirmava: "Todos os homens buscam ser
felizes, até aqueles que vão enforcar-se".
O desespero de ser feliz é tão grande que
estamos nos destruindo. Confesso que minha
postura quanto à felicidade era um tanto
estóica. Cria que a felicidade deveria ser
subpriorizada diante do dever. Eu nunca ouvira
falar em hedonismo cristão. Certo dia, ao lado
de Russell Shedd numa longa viagem entre
Fortaleza e São Paulo, ele me perguntou se eu
já lera os escritos de John Pipper, teólogo
reformado com doutorado no Wheaton College, no
Fuller Seminary e na Universidade de Munique.
Segundo Shedd, esse teólogo trabalhava com
alguns conceitos interessantes sobre a felicidade
e sobre como a mensagem de Cristo continha
elementos hedonistas. Interessei-me pelo seu
livro Desiring God (Desejando Deus) e de pronto o
comprei. Pela enésima vez vi que precisava
reelaborar minha teologia.
John Pipper inicia seu livro construindo a
filosofia do hedonismo cristão em cinco
pressupostos: 1) O desejo de ser feliz é uma
experiência humana universal. Esse desejo é bom
e não pecaminoso; 2) Nunca devemos negar nem
resistir ao nosso desejo de ser felizes. Devemos,
pelo contrário, intensificá-lo, buscando aquilo
que possa produzir maior satisfação; 3) Só
encontramos a felicidade verdadeira e permanente
em Deus; 4) A felicidade que encontramos em Deus
é plenificada quando compartilhada com outros em
amor; 5) À medida que tentamos abandonar nossa
busca de prazer e felicidade, desonramos a Deus e
fracassamos em amar as pessoas.
Sei que, a esta altura, algum leitor deve estar
estranhando que eu, um dos maiores opositores da
teologia da prosperidade, esteja defendendo uma
teologia aparentemente tão heterodoxa e tão
próxima desse cristianismo utilitário que se
pratica nos dia de hoje.
Estou consciente de que preciso acalmar alguns
preconceitos antes de perder a força da
argumentação.
Primeiro, essa teologia não é tão nova como se
pensa. Jonathan Edwards, o pregador reformado do
início do século XVIII, cria que a razão de
nossa existência é glorificar a Deus à medida
que nos deliciamos nele. Só glorificamos a Deus
se formos realmente felizes.
Segundo, o hedonismo cristão não propõe que
Deus seja um meio de alcançarmos prazer
mundanos. O prazeres do cristão hedonista emana
do próprio Deus. Ele é o fim de toda busca, e
não um meio de alcançar outro prazer além dele
próprio. Para o cristão hedonista, Deus é o
gozo último e incomparável, a alegria
infinitamente maior que a de andar em ruas de
ouro ou de rever entes queridos. O verdadeiro
hedonismo cristão não reduz Deus a uma chave
que abre os baús de ouro e de prata. Ele busca
transformar o coração para que possamos
afirmar: "Para mim mais vale a lei que
procede de tua boca, do que milhares de ouro ou
de prata" (Sl 119.72).
Terceiro, o hedonismo cristão não é
materialista nem mundano. Ele não faz do prazer
um deus, mas afirma que nosso Deus estará sempre
onde encontrarmos maior prazer. Jeová só será
o meu Deus se eu encontrar nele a minha
felicidade. O verdadeiro cristianismo não evita
o prazer nem o gozo, mas busca-os em uma fonte
diferente da do homem secularizado.
O Deus da Bíblia é feliz. Ele se delicia em si
mesmo, na sua criação e em seus propósitos.
Deus desfruta de infinita felicidade. "O
Senhor Deus está no meio de ti, poderoso para
salvar-te; Ele se deleitará em ti com alegria;
renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti
com júbilo" (Sf 3.17). Conforme o livro de
Jó, a obra criadora de Deus foi feita com
acompanhamento musical. "Onde estavas tu
quando eu lançava os fundamentos da terra?
(....) quando as estrelas da alva juntas
alegremente cantavam e rejubilavam todos os
filhos de Deus?" (Jó 38.4 e 7). O Senhor é
consciente de seu caráter perfeito e de sua
comunhão eterna na trindade. Pai, Filho e
Espírito Santo desfrutam de tamanha felicidade,
que fomos criados primordialmente para sermos
participantes desta alegria. O anelo do salmista
soa como mandamento: "Agrada-te do Senhor
(....)" (Sl 37.4). O maior dano que o pecado
causou não foi jurídico - ter quebrado uma lei
escrita -, mas relacional. Ele danificou nossa
capacidade de partilhar da felicidade divina. Na
relação trinitariana, Deus experimenta uma
felicidade suprema, tão perfeita, tão
verdadeira, que Jesus clamou na oração
sacerdotal: "E agora, glorifica-me, ó Pai,
contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de
ti, antes que houvesse mundo" (Jo 17.5).
Jesus contou uma parábola que expressa bem o
espírito do hedonismo cristão: "O reino
dos céus é semelhante a um tesouro oculto no
campo, o qual certo homem, tendo-o achado,
escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende
tudo o que tem, e compra aquele campo" (Mt
13.44). Alguém descobre um tesouro e, impelido
pela alegria, sai vendendo tudo o que tem para se
tornar seu proprietário. A mensagem dessa
parábola não nos induz a pensar que o reino de
Deus é imobiliário, ela implica um
relacionamento com o Rei. O tesouro aqui é
intimidade com o Deus trino. "Porque o reino
de Deus não é comida nem bebida, mas justiça,
e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm
14.17).
Millôr Fernandes afirmou sarcasticamente:
"Sinto a sensação cada vez mais
inconfortável de ser feliz num mundo em que isso
está completamente fora de moda". O mundo
busca freneticamente a felicidade, mas acham-se
cada vez menos pessoas felizes. Pelo número de
antidistônicos vendidos nas farmácias, o que é
uma tentativa de baixar o nível de stress e
ansiedade da vida, percebe-se que a felicidade
não está sendo encontrada. A convivência do
dia a dia deixa claro que as igrejas, as
universidades e os lares estão cheios de gente
infeliz. Por quê? A resposta é simples. Não
estamos buscando a felicidade na fonte certa.
Pipper fez uma afirmação ousada em seu livro:
"O hedonismo secular busca a felicidade, mas
não a busca com todas as forças". Se o
fizesse, satisfaria-se em Deus. Na verdade, essa
geração garimpa felicidade em minas inviáveis
e encontra cascalho. Cava poços para saciar sua
sede e bebe águas podres. No afã de ser feliz,
acaba ainda mais infeliz. O Padre Antônio Vieira
questionou o porquê dessa irracionalidade:
"Ora, veja cada um de nós o preço por que
se vende, e daí julgará o que é. Prezais
muito, e estimai-vos muito, desvaneceis-vos
muito: quereis saber o que sois por vossa mesma
avaliação? Vede o preço por que vos dais, vede
os vossos pecados. Dai-vos por um respeito,
dai-vos por um interesse, dai-vos por um apetite,
por um pensamento, por um aceno: muito pouco é o
que por tão pouco se dá. Se nos vendemos por
tão pouco, como nos prezamos tanto? Filhos de
Adão enfim. Quem visse a Adão no Paraíso com
tantas presunções de divino, mal cuidaria que
em todo o mundo pudesse haver preço por que se
houvesse de dar. E que sucedeu? Deu-se ele, e deu
a todos os seus filhos por um fruto. Se nos
vendemos tão baratos, por que nos avaliamos tão
caros?"
Deus estima a felicidade de sua criação ao
ponto de dar o seu próprio filho para
resgatá-la a si mesmo. As parábolas de Lucas 15
descrevem o drama eterno diante da infelicidade
humana. Certo homem possui 100 ovelhas, mas
diante do sofrimento de apenas uma, faz tudo para
resgatá-la de volta ao aprisco. O júbilo de
tê-la de volta é imenso. Uma mulher perde uma
moeda, mas não descansa enquanto não a
encontra. Quando a tem consigo, chama suas amigas
para celebrarem juntas. Jesus culmina contando a
parábola de um homem que tem dois filhos, dos
quais um o abandona, querendo ser feliz. Nessa
busca da felicidade ele acaba miserável,
angustiado e nu. Ao voltar para casa, arrependido
e disposto a se contentar com a simples companhia
do pai, gera grande celebração. Jesus veio ao
mundo para nos lembrar que Deus Pai é feliz e
articulou um plano eterno para resgatar seus
filhos da miséria em que se encontram. Ele
estava disposto a pagar qualquer preço, para que
fôssemos participantes da glória divina:
"(....) Jesus, o qual em troca da alegria
que lhe estava proposta, suportou a cruz
(....)" (Hb 12.2).
Depois de ler o livro de John Pipper, estou
convencido de que todos nasceram para ser
felizes. Sobretudo, estou consciente de que as
pessoas encontrarão essa felicidade somente em
Deus. Sei que fama, fortuna e respeitabilidade
humana não produzem a felicidade que completa
homens e mulheres. Somente partilhando da
felicidade do Deus trino se alcança a autêntica
alegria. Jesus prometeu à mulher samaritana:
"Quem beber desta água tornará a ter sede;
aquele, porém, que beber da água que eu lhe
der, nunca mais terá sede, para sempre; pelo
contrário, a água que eu lhe der será nele uma
fonte a jorrar para a vida eterna" (Jo
4.13-14).
Como aquela mulher, devemos pedir: "Senhor,
dá-me dessa água".
Pastor Ricardo Gondim
betesdasp@originet.com.br
Ricardo
Gondim é pastor da igreja Assembléia de Deus
Betesda, em São Paulo,
e autor de,
entre outros, "É proibido" (Editora
Mundo Cristão).
Texto extraído da Revista Ultimato - http://www.ultimato.com.br
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